sexta-feira, 27 de julho de 2007

Adélia Prado

Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas, as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema, decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, trinta anos depois.
Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, com sombrinha infantil e coxas à mostra. Meus filhos me repudiaram envergonhados, meu marido ficou triste até a morte, eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

"Poesia Reunida", Editora Siciliano - 1991, São Paulo, página 108.

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